Ruy Ennes, ‘ator em Hollywood’: a história do homem que enganou jornalistas e inventou carreira | Cinema

Ruy Ennes, ‘ator em Hollywood’: a história do homem que enganou jornalistas e inventou carreira | Cinema

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O currículo de Ruy Ennes não caberia neste texto, se fosse levado em conta o que ele já disse a sites, programas de TV, jornais e revistas no Brasil e em Portugal.

O ator brasileiro diz que trabalhou com Tarantino e prepara filme com Tom Hanks. Diz que atuou nas séries “Game of Thrones”, “The Witcher” e “Desperate Housewives”. Diz que foi indicado ao Festival de Cannes. Diz que se formou em Harvard, Sorbonne e Actor’s Studio. Diz muita coisa.

Foram pelo menos 20 entrevistas nos últimos seis anos com essas notáveis credenciais não comprovadas. Mas o Internet Movie Database (IMDb), referência para saber de filmografias de atores, tem apenas um tópico no perfil de Ennes: o clipe “Maluco”.

Ele interpreta um ex do par romântico de Juancky La Diferencia, cantor porto-riquenho de reggaeton. O vídeo teve 21 mil views em seis anos no YouTube.

Mesmo assim, Ruy Ennes segue dando entrevistas sobre esses e outros feitos não confirmados. Ele se apresenta como “ator em Hollywood”, sendo que não há prova de que tenha feito filmes lá. O G1 conversou com Ennes e, apesar das evidências, ele nega que esteja mentindo.

Procurados pelo G1, Harvard e o estúdio de “Era uma vez em… Hollywood” não confirmam o relato dele. Ennes garante que atuou no longa de Tarantino, mas não cita em qual parte. Tampouco tem fotos com o figurino ou no set.

Ruy Ennes é creditado como ‘Ator em Hollywood’ durante entrevista em Portugal — Foto: Reprodução/RTP

Além de filmes conhecidos, ele costuma citar títulos nunca lançados. Já disse que protagonizou os longas “Daytime cowboy” e “Rock will never die”, mas não há registros sobre eles.

Ruy Ennes, porém, fala com carinho do começo da carreira, antes de ter um currículo supostamente recheado. “Desde quando eu tinha uns quatro anos de idade, eu falava pros meus pais que eu queria ser ator e eles sempre incentivaram essa carreira artística. Aí meus pais me matricularam em diversos cursos no Rio de Janeiro, onde eu nasci”, diz Ennes ao G1.

Nesses cursos, ele conta que começou “a sentir o gosto pelo teatro e pela arte em si”. “Eu sempre falei desde pequeno: ‘vou morar em Nova York, porque é o centro do mundo’. É onde as coisas acontecem, onde a arte acontece. Estou até hoje aqui.”

Mesmo ao ser contestado, Ennes diz que foi “um sonho” ter trabalhado em “Era uma vez em… Hollywood”. “Eu sou muito fã do Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Tarantino. Foram figuras muito inalcançáveis”, comenta, gaguejando um pouco.

Ele tem até uma história bem detalhada sobre como teria “conseguido” o papel: “Um amigo meu da Actor’s Studio falou que estava rolando um teste e eu acabei passando. Fazer um filme desse grande porte é muito importante pra minha carreira. Foi um personagem pequeno, porém intenso. Foi um cowboy que eu fiz. Foi pequeno, porém foi gratificante.”

Ruy Ennes, na verdade, não é só ator. Ruy Elias de Jesus Ennes já se apresentou como jornalista, quando se envolveu em uma briga com Theo Becker, em 2015. Ele foi ao apartamento do também ator, no Rio, e deixou cair cinzas de cigarro no chão, durante uma festa. Becker empurrou Ennes, amigo de um amigo dele. Ele processou Becker, mas chegaram a um acordo.

O ator também já foi dono de uma agência de viagens e deu entrevista para um canal do YouTube sobre o setor hoteleiro do Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Ruy Ennes posa em foto enviada a agentes de atores — Foto: Divulgação/Assessoria do artista

Quando perguntado, pelo G1 ou em entrevistas anteriores, sobre a trama de alguma produção desconhecida que ele diz ter protagonizado, Ennes costuma repetir uma sinopse parecida com a do clipe de reggaeton estrelado por ele em 2014.

O filme “Almost” (segundo ele, indicado a Cannes) teria o mesmo enredo desse vídeo. “Minha personagem foi um desafio, porque eu me apaixonei pela mulher do meu melhor amigo. Aí foi um triângulo amoroso”, explica.

Não há qualquer menção ao curta no histórico do Festival de Cannes. Ele diz que foi indicado ao prêmio de Melhor Ator, mas os atores são diretamente premiados no evento. Uma lista de indicados não é divulgada, como no Oscar ou no Globo de Ouro. Na verdade, não há qualquer registro da existência desse filme na internet.

Mesmo sabendo dessa particularidade do festival francês, Ennes diz que a reação de ter sido indicado “foi muito grande” e que “não dava nada pelo filme”. Segundo ele, o projeto começou na New York Film Academy. Diferentemente de Harvard e Sorbonne, o nome dele aparece na lista de ex-alunos da escola.

“Eu sempre faço muitos curtas lá. Eu conheci o Juan Chaves, diretor. Começamos a filmar em tudo quanto é canto em Nova York, como no Central Park. Começamos a ter uma sintonia forte. Acabei inscrevendo o filme no festival e tive essa oportunidade.”

O ator Ruy Ennes no Rio de Janeiro e em Nova York — Foto: Divulgação/Assessoria do artista

Ennes conta que a vontade de querer ser ator surgiu quando era bem novo. Segundo ele, a ida para Nova York foi aos 16 anos, em busca de um “sonho”.

A idade do ator também é controversa. No perfil enviado pelas duas assessoras dele, diz ter 35 anos. Na verdade, tem 41. Ennes relata que ia com seu pai, português, assistir gravações de novelas no Brasil. E ele tem uma novela, de fato, no currículo.

Ruy Ennes interpretou o piloto do jatinho de um dos atores principais de “Ouro Verde”, da emissora portuguesa TVI. Ele aparece em pelo menos duas cenas, publicadas no perfil dele no YouTube. Ennes conseguiu o papel se apresentando como “ator em Hollywood”.

“Eu ia pra lá pra dar entrevista pras emissoras de lá. Aí minha assessoria entrou em contato com a novela ‘Ouro Verde’, que estava passando na TV portuguesa. Estavam precisando de uma pessoa pra fazer uma personagem lá.”

Por conta da suposta carreira hollywoodiana, ele participou de programas portugueses de auditório e deu entrevista para a TV oficial do Sporting, um dos principais times de futebol de Lisboa.

“O engraçado é que fazer um filme em Hollywood falando inglês é muito mais fácil do que fazer uma novela falando em português, pra mim. Eu me adaptei muito fácil com a língua inglesa. Eu acho mais fácil fazer um filme em inglês, já estou acostumado com o método aqui.”

“As rotinas de novela são mais intensas do que um filme”, compara. “Novela é uma coisa praticamente diária, não tenho muito tempo pra isso. São completamente diferentes. No filme, você tem mais tempo para estudar mais profundamente, elabora o personagem. Na novela, decora o texto ao vivo praticamente.”

A facilidade de atuar em inglês, conta ele, veio com muito estudo. “É muito difícil entrar na Actor’s Studio. Pra sair, é muito difícil também”, explica. Fechada por conta da pandemia, a escola não respondeu se ele se formou ou não lá.

“Os professores exigem muito. A gente faz trabalhos, provas e tudo mais. Então, é uma bagagem enorme como ator, monstruosa. Eu fiz vários cursos, rodei tudo aqui em Nova York. Mas o melhor curso, que saí com potencial, foi a Actor’s Studio. Os outros foram cursos livres, rápidos demais, não tenho como saber a dimensão.”

Além de “Maluco” e “Ouro Verde”, a única outra produção de Ruy Ennes, encontrada pelo G1 e comprovada com vídeos e fotos, é um programa de variedades no YouTube. “Eu misturo entretenimento com culinária de Nova York. É o Ruy Ennes show”, resume.

No programa, ele conversa com turistas pelas ruas da cidade, mas o papo esbarra na pouca desenvoltura. “Como é mais um dia de tempestade de neve aqui?” e “É mais um dia maravilhoso, de neve, no Central Park. Fale um pouco sobre esse dia de neve, no Central Park” são algumas das tentativas de interação. Ele também comenta eventos culturais.

As gravações pararam, é claro, por causa da pandemia da Covid-19. Segundo a assessoria do ator, Ennes chegou a ser diagnosticado com coronavírus, mas se recuperou.

O ator Ruy Ennes — Foto: Divulgação/iedaribeirocasting



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