O longo caminho dos super-heróis negros nos quadrinhos | Mundo

O longo caminho dos super-heróis negros nos quadrinhos | Mundo


Batman, Super-Homem, Asterix ou Lucky Luke – os heróis mais populares das histórias em quadrinhos são brancos, e personagens negros raramente são vistos nas séries mais famosas de gibis. Quando o fazem, eles são normalmente retratados com clichês, como os nativos com restrições linguísticas e estilizados em caricaturas estereotipadas no quadrinho ‘Tintim no Congo’, cujo ilustrador Hergé foi criticado por fazer um retrato racista do país africano.

Agora, pela primeira vez, um afro-americano terá um papel de destaque em uma revista de histórias em quadrinhos de Lucky Luke. O conceito da nova série, anunciada para o outono do hemisfério norte, teria surgido antes da morte de George Floyd e dos atuais protestos do movimento Black Lives Matter. O gênero é particularmente popular nos EUA, mas, como os super-heróis negros são representados neste país?

Revistas em quadrinhos — Foto: Reprodução/TV Globo

Um dos primeiros – senão mesmo o primeiro herói negro – é Lothar, de Mandrake, o Mágico (1934). Servo do mágico Mandrake, desenhado por Lee Falk, ele caçava criminosos em seu tempo livre.

Em entrevista à DW, o especialista em quadrinhos Andreas Platthaus explica que, por um longo tempo, havia comparativamente poucos personagens negros proeminentes, também porque os artistas que fundaram os quadrinhos nos EUA vieram principalmente da Costa Leste – e havia uma proporção de população branca maior naquela região do que nos estados do sul. Além disso, todo o panorama da imprensa americana era “extremamente branco”.

Vestido com uma túnica de pele de leopardo e com um chapéu típico turco, Lothar, que falava um inglês acidentado, dava ao mágico a força muscular necessária para confrontos físicos. Em 1965, Lothar foi “modernizado” e, como companheiro do mágico, falava inglês corretamente e vestia uma camisa – embora muitas vezes com estampas de animais.

O personagem Ébano Branco também era o principal ajudante de outro herói. Em 1940, Will Eisner o apresentou no quadrinho The Spirit. Seu nome era um trocadilho racista; sua aparência exterior com olhos grandes brancos e lábios grossos e avermelhados, bem como o uso de gíria, fizeram dele um exemplo perfeito de uma representação racista e estereotipada de negros na cultura dominante das histórias em quadrinhos.

Mais tarde, Eisner afirmou que tinha desenhado deliberadamente o personagem dessa maneira e que ele correspondia ao humor da sociedade da época. O herói do título, o detetive Denny Colt, foi apoiado por Ébano Branco em muitas situações delicadas. Ao longo dos anos, mas especialmente nas últimas reinterpretações da série de quadrinhos, ele se desenvolveu para além do estereótipo.

Mudança gradual de papéis

No final da década de 1940 e durante os anos 1950, os personagens negros evoluíram de “ajudantes úteis” de heróis brancos para protagonistas únicos. Em 1947, foram publicadas as All-Negro Comics, a primeira revista conhecida criada exclusivamente por artistas afro-americanos, mas que também circulava apenas no seio da comunidade negra e não chegava ao grande público. A edição única apresentou histórias individuais, entre elas, a de Ace Harlem ou Lion Man, que são considerados alguns dos primeiros super-heróis negros de histórias em quadrinhos.

Em 1954, a série em quadrinhos Contos da Selva (Jungle Tales) foi publicada pela Atlas Comics, a antecessora da Marvel Comics. Com ela nasceu a primeira “estrela” negra do grande público na revista em quadrinhos intitulada Waku, Principe dos Bantu. Waku era um chefe tribal africano inteligente e esclarecido que muitas vezes teve que defender sua posição de liderança e proteger seu povo do perigo. Tradicionalmente, ele carregava uma lança e um escudo tribal.

O primeiro herói afro-americano com sua própria série em quadrinhos de mesmo nome (duas edições) foi Lobo (1965). Publicado pela Dell Comics, o pistoleiro lutou contra criminosos no Velho Oeste. A série foi rapidamente descontinuada devido a rumores de que muitos vendedores haviam rejeitado os quadrinhos.

No final da década de 1960, o primeiro super-herói afro-americano apareceu em uma história de quadrinhos convencional: Falcão (nome real do personagem: Samuel Wilson). Ele, que voa com asas mecânicas e pode controlar os pássaros por telepatia, foi apresentado por Stan Lee e Gene Colan, em 1969, em Capitão América. O guardião do Harlem chega a usar por um tempo o traje do Capitão América.

Marvel anuncia que Falcão assume identidade de Capitão América — Foto: Divulgação/Marvel

“No final dos anos 1960, as editoras de super-heróis tinham notado que estariam se dedicando completamente a um certo público de leitores se não permitissem a aparição de super-heróis negros – figuras de identificação que seriam completamente normais se pensarmos economicamente e dissermos que queremos que crianças negras também leiam nosso produtos”, comenta Platthaus sobre o desenvolvimento das revistas em quadrinhos no final da década de 1960.

Influência dos filmes “Blaxploitation”

Na década de 1970, o gênero de filmes “Blaxploitation” [filmes protagonizados e realizados por atores e diretores negros principalmente para o público afro-americano] influenciou a literatura de revistas em quadrinhos. Com sua autoconfiança fortalecida pelo movimento dos direitos civis dos anos 1960, os heróis e heroínas negros conquistaram na época as salas de cinema com filmes explicitamente de baixo orçamento que frequentemente tematizava a realidade dos guetos negros.

Esse desenvolvimento continuou nos quadrinhos, o que produziu predominantemente “estereótipos de gângsters do gueto” unidimensionais, como Luke Cage. Em 1972, Cage – um ex-presidiário com força sobre-humana e pele quase indestrutível – foi o primeiro super-herói negro a ter sua própria série de quadrinhos.

Os anos 1970 também viram o aparecimento dos primeiros super-heróis negros: Núbia (1973), a irmã gêmea perdida da Mulher-Maravilha; Tempestade (1975), que nasceu com habilidades sobre-humanas e pode controlar o clima como uma mutante; e Abelha (1976) como parte dos Teen Titans.

Miles Morales, o novo Homem-Aranha — Foto: Divulgação/Marvel Comics

Desde os anos 1980, as equipes de super-heróis eram difíceis de serem concebidas sem um personagem negro e os desenhos dos personagens eram muito mais diversificados. Apenas em 2011 houve um super-herói negro no primeiro esquadrão: em vez do branco Peter Parker, cuja série de quadrinhos também continua, a Marvel Comics criou o personagem Miles Morales que, com ascendência hispânica, se tornou um Homem-Aranha alternativo. O gênero de quadrinhos americano original, no qual os super-heróis correspondem ao protótipo de homens brancos e patriotas parece estar mudando cautelosamente.

Pantera Negra e o futuro dos heróis negros

O mais famoso e primeiro super-herói negro – literalmente – com capacidades sobrenaturais nos quadrinhos tradicionais americanos é o Pantera Negra, criado por Stan Lee e Jack Kirby. Ele apareceu pela primeira vez em 1966 como personagem coadjuvante nos quadrinhos Quarteto Fantástico, publicados pela Marvel.

Cartaz do filme ‘Pantera Negra’, divulgado pela Marvel na Comic-Con San Diego 2017 — Foto: Reprodução/Twitter/Marvel

Pantera Negra – cujo nome verdadeiro é T’Challa e tem uma mente brilhante, reflexos sobre-humanos, força e capacidade de curar feridas – é o rei de Wakanda, uma nação fictícia, altamente desenvolvida e afrofuturista. Por ele ter aparecido na fase final e, ao mesmo tempo, no auge do movimento pelos direitos civis nos EUA, mesmo antes do Partido dos Panteras Negras, o super-herói sempre foi entendido como uma mensagem política. No entanto, ele só conseguiu sua própria série de quadrinhos em 1973 (Jungle Action).

Mais de quatro décadas depois (2018), Pantera Negra entrou nas salas de cinema sob a direção de Ryan Coogler, o primeiro diretor negro de um filme da Marvel. A revista Rolling Stone se referiu ao filme como uma “obra-prima”. A grande atenção que a obra recebeu poderia, em combinação com a continuação já anunciada para 2021 e a atual situação social e política nos EUA em torno do movimento Black Lives Matter, estimular ainda mais as histórias em quadrinhos.

A morte de George Floyd e seu impacto na cultura de protesto foram fatores tão importantes nos dias de hoje que os quadrinhos não contornariam o tema e os problemas seriam vistos nos quadrinhos.

Os novos heróis poderiam então crescer a partir de personagens coadjuvantes. Para que uma espécie de “autoconfiança negra” se torne ainda mais articulada nos quadrinhos, no entanto, são necessários mais quadrinistas negros. “Porque só assim algo verdadeiramente fundamental mudará”, conclui Platthaus.



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