Discos para descobrir em casa – ‘Voadeira’, Mônica Salmaso, 1999 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Voadeira, Mônica Salmaso, 1999

♪ Ao discorrer poeticamente sobre a barca voadeira em texto reproduzido no encarte da edição em CD do terceiro álbum de Mônica Salmaso, Voadeira, o escritor Marcílio Godoi ressaltou que aquela embarcação flutua no rio, contrária à correnteza. A imagem foi analogia perfeita para retratar o canto lapidar de Mônica Salmaso.

Cantora nascida em fevereiro de 1971 na cidade de São Paulo (SP), Salsamo sempre seguiu movimento oposto ao curso do mercado fonográfico desde que entrou em estúdio, há 25 anos, para gravar de maio a agosto de 1995 o primeiro álbum, Os afro-sambas (1996), com releitura – feita pela cantora com o violonista Paulo Bellinati – do repertório apresentado por Baden Powell (1937 – 2000) e Vinicius de Moraes (1913 – 1980) em antológico disco de 1966.

Com canto técnico que sempre depurou a emoção sem diluir o sentimento das músicas, Salmaso começou em 1995 a pôr essa voz límpida a serviço de composições de valor atemporal de uma MPB que o Brasil parecia já jogar para escanteio naqueles anos 1990.

A rigor, a artista já entrara em cena em 1989 como integrante do elenco da peça O concílio do amor, dirigida pelo encenador mineiro Gabriel Villela. Mas foi a partir do disco Os afro-sambas que Mônica Salmaso começou paulatinamente a se fazer ouvir com especial admiração nos nichos em que se cultua a MPB.

Na sequência, a cantora gravou em 1997 o primeiro álbum solo, Trampolim, lançado em 1998 com produção musical assinada pelo mesmo Rodolfo Stroeter que deu forma ao disco seguinte da artista, Voadeira. Gravado em apenas cinco dias, de 23 a 28 de agosto de 1999, sob direção musical de Stroeter com a própria Mônica Salmaso, o álbum Voadeira foi lançado em novembro daquele ano de 1999 pela gravadora Eldorado.

A gravação e edição do disco Voadeira foi o prêmio recebido pela cantora pela vitória na categoria vocal de evento criado para revelar jovens talentos da música brasileira. Descendente da linhagem nobre de Trampolim, o álbum Voadeira foi consagrado pela crítica, mas o público seguidor da MPB prestaria mais atenção em Salmaso dali a cinco anos, a partir da edição do álbum Iaiá (2004), primeiro dos oitos álbuns editados desde então pela cantora através da gravadora Biscoito Fino.

Ouvido 21 anos após a edição original em CD, o disco Voadeira conserva o mesmo brilho de 1999, permanecendo como um dos mais belos títulos da irretocável obra da cantora e como álbum relevante na discografia brasileira.

Sob delicada arquitetura acústica, Salmaso conseguiu harmonizar a ancestralidade africana do samba, a brejeirice regional do Brasil de dentro, a praia límpida do cancioneiro de Dorival Caymmi (1914 – 2008), a aridez do sertão nordestino, a seminal cultura indígena e a melancolia herdada dos tempos imperiais em repertório selecionado com rigor estilístico.

Ao longo das 15 faixas do disco, imperou o canto puro e verdadeiro de Salmaso, saudado com orgulho pela intérprete no arremate de Voadeira com entrada no ninho interiorano de Canário do reino (Antonio Carvalho e Zapatta, 1972). A cantora reviveu esse sucesso do terceiro álbum de Tim Maia (1942 – 1998) com o arranjo e o toque da sanfona de Toninho Ferragutti, acordeonista também arregimentado para tocar e orquestrar Dançapé (Mário Gil e Rodolfo Stroeter, 1999), música que abriu o álbum Voadeira.

A rigor, Dançapé foi uma das duas músicas inéditas de repertório pautado por regravações – marca que se tornaria recorrente na discografia de Salmaso – feitas com arranjos minimalistas de invariável leveza.

Em sintonia com a suavidade do canto da intérprete, essa leveza embalou tanta Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971) – cuja abordagem foi indício da admiração da artista pelo cancioneiro de Chico Buarque, a quem Salmaso dedicaria o álbum Noites de gala, samba na rua (2006) dali a sete anos – quanto O vento (Dorival Caymmi, 1949), chamado pela intérprete com as tablas, congas e pratos do arranjo do violonista Mário Gil.

“Vim cantar sobre essa terra”, avisou Salmaso no verso inicial de Canto em qualquer canto (Ná Ozzetti e Itamar Assumpção, 1999), dando a pista de que Voadeira era disco sobre um Brasil desconhecido pelo Brasil. O que deu sentido às incursões da intérprete pelo sertão nordestino em Beradêro (Chico César, 1991) – música cantada quase a capella por Salmaso com intervenções do baixo apropriadamente áspero de Rodolfo Stroeter – e em A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983), outra faixa arranjada pelo virtuoso acordeonista Toninho Ferragutti.

Acentuada pelo projeto gráfico de Marcílio Godoi, cuja arte criada para o disco incluiu reproduções de fotos de casas da exposição de Anna Mariani, a delicadeza sensível do álbum Voadeira mostrou outra face de Cara de índio (Djavan, 1978), faixa em que a percussão sutil de Caito Marcondes evocou o universo musical do grupo mineiro Uakti em gravação que, na segunda metade, foi incrementada com o fraseado do piano de Benjamin Taubkin.

Taubkin foi o arranjador de Cara de índio, música que dialogou com Juparanã (Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro, 1999) na fina costura do disco. Joyce Moreno também apareceu na ficha técnica do álbum Voadeira como parceira de Silvia Sangirardi em Negrinho do Pastoreio, tema evocativo do folclore gaúcho.

Dentro da seleção do repertório de Voadeira, Silenciosa – composição de Fátima Guedes lançada pela autora no álbum Pra bom entendedor (1993) – talvez seja, em perspectiva, a música mais surpreendente do disco, já que Salmaso nunca mais gravaria música da compositora carioca. Já as outras faixas deram pistas certeiras dos caminhos que seriam seguidos por Mônica Salmaso nos anos 2000.

A então esquecida Senhorinha (1986) – modinha de Guinga com Paulo César Pinheiro lançada na voz de Ronnie Von na trilha sonora da novela Sinhá moça (TV Globo, 1986) com o título de Sinhaninha – foi prenúncio da vocação da cantora para reabilitar a parceria de Guinga e Pinheiro, mote do majestoso álbum Corpo de baile (2014).

Com arranjo criado com o sopro serelepe do clarinete de Nailor Proveta Azevedo e com a batida do cajon percutido por Marcos Suzano, a gravação de Minha palhoça (J. Cascata, 1935) mostrou que Salmaso sabia cair com suingue no samba revivido pela cantora em encontro virtual com o mesmo Proveta em episódio da aclamada série Ô de casas, criada pela cantora como alento para período de isolamento social vivido pela humanidade em 2020 para a contenção da pandemia do coronavírus.

Samba-enredo com o qual a escola de samba Portela desfilou no Carnaval de 1972, Ilu Ayê (Terra da vida) (Cabana e Norival Reis, 1971) flagrou Salmaso à vontade no terreiro na companhia dos pandeiros e cuícas de Marcos Suzano.

Contudo, entre tanta beleza, o voo mais alto de Mônica Salmaso neste álbum de 1999 foi a interpretação depurada do samba-canção Ave Maria no morro (Herivelto Martins, 1942) em gravação com o piano de Benjamim Taubkin que elevou o canto da artista aos céus.

Ô de casas: se ainda não conhecem, descubram o álbum Voadeira o quanto antes para se embevecer com a arte desta grande cantora do Brasil que teve a sabedoria de nadar contra a correnteza.



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