Discos para descobrir em casa – ‘Sétima arte’, Fátima Guedes, 1985 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Sétima arte, Fátima Guedes, 1985

“O assunto é cinema”, avisou o então já falecido Glauber Rocha (1939 – 1981) na abertura do quinto álbum de Fátima Guedes, Sétima arte, lançado em 1985.

Extraída de entrevista concedida pelo cineasta baiano à edição do programa de TV Abertura veiculada em 26 de agosto de 1979, a voz do cineasta baiano foi ouvida na vinheta que introduziu o disco e preparou o clima para a entrada da música-título Sétima arte, uma das dez inéditas composições autorais apresentadas pela cantora e compositora carioca neste álbum que encerrou o primeiro ciclo da discografia dessa artista nascida em maio de 1958.

Compositora desde os 15 anos, Fátima Guedes já se revelou adulta desde que começou a mostrar a produção autoral em festivais regionais a partir de 1973, quatro anos antes de ser avalizada para o Brasil na voz antenada de Elis Regina (1945 – 1982), cantora que incluiu música da jovem autora, Meninas da cidade, no roteiro do show Transversal do tempo, estreado em novembro de 1977.

A música de Fátima Guedes entrou no roteiro ao longo da turnê, em 1978, ano em que Wanderléa gravou composição da artista, Bicho medo, no álbum Mais que a paixão (1978).

Com o aval decisivo de Elis, a cantora e compositora se fez ouvir em 1979, ano em que lançou o primeiro álbum, Fátima Guedes (1979), amostra consistente de cancioneiro denso, feminino, intenso que contribuiu para a revolução feita pela mulher na MPB em 1979.

Lançados no embalo dessa abertura mercadológica para cantoras que davam vozes às próprias músicas, álbuns como Fátima Guedes (1980), Lápis de cor (1981) e Muito prazer (1983) corroboraram a maturidade precoce de compositora dona de obra cortante que sempre tocou de forma incisiva em questões sociais e em feridas da alma humana.

Produzido por Paulinho Albuquerque (1942 – 2006), com arranjos e regências do pianista Gilson Peranzzetta, o álbum Sétima arte versou conceitualmente sobre cinema – com arte temática criada por Elifas Andreato para a capa, a contracapa e o encarte do LP editado pela gravadora Philips / Polygram – e teve o repertório inteiramente autoral costurado por vinhetas com temas de trilhas sonoras de filmes como Singin’ in the rain (1952) e Amarcord (1973).

Na música-título do álbum, Sétima arte, canção envolvida em suntuoso arranjo orquestral, a artista versou sobre os efeitos da magia do cinema nos “sentimentos reais” dos espectadores.

Na sequência do roteiro alinhavado por Fátima para o disco, Minha nudez exemplificou a habilidade da compositora para recorrer a imagens cinematográficas – como o vento que levantou a saia da icônica atriz Marilyn Monroe (1926 – 1962) – para retratar estados d’alma.

Nesse roteiro, a canção Film noir pôs em foco cena rotineira de amor sensual, sublinhado pelo toque do piano de Gilson Peranzzetta.

Músicos do porte de Armando Marçal (percussão), Arthur Maia (1962 – 2018) (baixo), Claudio Jorge (violão), Henrique Cunha (trompete e flugelhorn), Leo Gandelman (saxofone), Luizão Maia (1949 – 2005) (baixo), Paulinho Braga (bateria), Teo Lima (bateria) e Victor Biglione (guitarra) executaram a “trilha sonora” do álbum Sétima arte sob a batuta do maestro Gilson Peranzzetta (piano e teclados).

Fora da narrativa cinematográfica do disco, ao menos de forma explícita, a canção Os amores que eu não tive reiterou o excelente acabamento orquestral da trilha do disco enquanto reverberou tema recorrente no cancioneiro de Fátima Guedes, a carência afetiva, assunto de músicas anteriores como Desacostumei de carinho (1981).

Expondo a coerência dessa obra, Criatura fechou o disco com densidade que ecoou Mais uma boca (1980), música apresentada pela autora no festival MPB-80 (TV Globo), evento que há cinco anos dera projeção nacional à artista.

Canção que abriu o lado B do LP editado com encarte que revelou imagens em que o rosto da cantora era inserido em antológicas cenas de cinema, Um sonho foi amplificada pela voz soul de Cláudio Zoli, cantor projetado em 1983 como integrante da banda Brylho.

Na cena ou faixa seguinte, a música Natureza morta caiu no samba com a suntuosidade que moldou o álbum Sétima arte, por vezes em contraste com a essência íntima da música de Fátima Guedes.

Não te amo mais pareceu se descolar do roteiro cinematográfico para se impor como típica canção dilacerante da compositora, entranhada em ressentimentos e encerrada com citação de As time goes by (Herman Hupfeld, 1931), tema do filme Casablanca (1942).

Na sequência, com toques de salsa e rumba, Férias em Acapulco tentou descontrair com extrovertida latinidade cubana, temperada com suingue potencializado pelas congas e bongôs percutidos por Armando Marçal.

No arremate do disco, a voz de Glauber Rocha encerrou o álbum Sétima arte, após a já mencionada canção Criatura, com a sentença apaixonada de que “O cinema é a mais importante de todas as artes”.

Em que pese todo o capricho evidenciado na produção musical de Paulinho Albuquerque, nos arranjos de Gilson Peranzzetta e na arte gráfica de Elifas Andreato, o álbum Sétima arte foi lançado sem a mínima repercussão comercial.

Expelida da corrente mainstream do mercado fonográfico, Fátima Guedes encontrou abrigo na gravadora independente Velas, por onde editou álbuns como Coração de louca (1989), Pra bom entendedor… (1993), Grande tempo (1995) e Muito intensa (1999).

Nesses discos, a cantora se aprimorou como intérprete – inclusive de músicas alheias – e desenvolveu a obra autoral com fidelidade à ideologia que já expôs no inicio da carreira. Fátima Guedes faz arte em forma de música, como atestaram álbuns infelizmente pouco ouvidos como Sétima arte.



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