Discos para descobrir em casa – ‘Romance da lua lua’, Amelinha, 1983 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Romance da lua lua, Amelinha, 1983

♪ O público menos antenado dos shows de Elba Ramalho talvez suponha que Frevo mulher – música à qual a cantora sempre recorre no bis por saber do poder contagiante da composição de Zé Ramalho – pertença originalmente ao repertório da intérprete paraibana.

A bem da verdade, esse frevo de tom forrozeiro, ideal para animar festas juninas e fins de shows, foi lançado na voz de Amélia Claudia Garcia Collares Bucaretchi, cantora cearense de nome pomposo, carinhosamente conhecida pelo Brasil no fim dos anos 1970 como Amelinha.

Cultuada por álbuns como Romance da lua lua, disco (parcialmente) conceitual sobre a lua, apresentado em 1983, Amelinha gravou Frevo mulher em 1978 para álbum lançado no início de 1979, com o nome da então inédita composição de Zé Ramalho no título.

Nascida em Fortaleza (CE) em julho de 1950, Amelinha despontou antes de Elba Ramalho com canto mais doce e menos agreste do que o da valente colega paraibana. Em 1970, após adolescentes incursões musicais feitas na cidade natal, a debutante cearense migrou para a cidade de São Paulo (SP), onde integrou a banda Maresia.

Embora dissociada do grupo que ficaria conhecido como Pessoal do Ceará, Amelinha debutou em disco quatro anos mais tarde como convidada do conterrâneo Ednardo na gravação de Ausência, música do cantor e compositor cearense, incluída pelo artista no primeiro álbum solo, O romance do pavão mysteriozo (1974).

Em 1977, contratada pela gravadora CBS, principal reduto da então nova geração de artistas nordestinos, a cantora lançou o primeiro álbum, Flor da paisagem, ao qual se seguiu, dois anos depois, o já mencionado disco Frevo mulher (1979).

Com trajetória então ascendente, a artista viveu pico de popularidade ao defender a música Foi Deus quem fez você, lírica obra-prima do cancioneiro do compositor paraibano Luiz Ramalho (1931 – 1981), no festival MPB-80, exibido pela TV Globo em 1980.

Vice-campeã do festival, a composição Foi Deus quem fez você consolidou a projeção nacional de Amelinha e impulsionou as vendas do terceiro álbum da cantora, Porta secreta, lançado em 1980 com a canção do festival e com outro sucesso popular, Gemedeira, agalopada parceria de Robertinho de Recife com José Carlos Capinan.

A propagação da gravação da canção Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor (Zé Ramalho, 1982) na abertura da minissérie Lampião e Maria Bonita (TV Globo, 1982) manteve alto o valor de Amelinha na bolsa do mercado fonográfico e deu visibilidade ao quarto álbum da cantora, lançado naquele ano de 1982 com a épica música de Zé Ramalho – marido de Amelinha nesse período de boom da artista – no título.

Foi nesse contexto favorável que a cantora gravou o quinto álbum, Romance da lua lua, produzido por Ramalho com Mauro Motta. Lançado em 1983 com capa que expôs Amelinha em foto de Reginaldo Marinho, o álbum Romance da lua lua foi o último título da vigorosa fase inicial da discografia da artista – período marcado sobretudo pela propagação da música nordestina produzida pela geração de compositores que despontara nos anos 1970.

A partir do sexto álbum, Água e luz (1984), Amelinha foi induzida a seguir sobretudo a trilha da canção (tecno)pop radiofônica que deu o tom da década de 1980 – caminho que, a médio prazo, se mostraria equivocado e que fez a cantora perder o rumo de discografia que se tornaria mais espaçada a partir da segunda metade dos anos 1980.

O álbum Romance da lua lua repercutiu menos do que os discos anteriores da cantora, mas resistiu bem ao tempo, em que pese a irregularidade do repertório formado por canções que, no lado A do LP, versaram sobre a lua.

Tentativa explícita de bisar o sucesso de Gemedeira, a frenética música-título Romance da lua lua apresentou melodia feita por Flaviola – nome artístico do cantor, compositor e poeta pernambucano Flávio Lira – a partir de poema do escritor espanhol Federico García Loca (1898 – 1936). Resultou na melhor faixa do disco.

Na sequência, com arranjo tecnopop que já deixou antever o tom do álbum seguinte da cantora, Sertão da lua (Caio Silvio e Ricardo Alcântara) citou Luar do sertão (João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, 1910) em versos que partiram em defesa da poesia e do sentimento de canções como Lua semente (Zé Ramalho e Zé Neumanne), faixa lírica do LP, também lançada em single pela gravadora CBS.

No álbum Romance da lua lua, Amelinha iluminou música obscura de Jorge Mautner – Lá vem São Jorge (Hino de São Jorge), espécie de canção em feitio de oração, nunca gravada pelo compositor – e registrou trecho de Luar (A gente precisa ver o luar) (1981), música então recente de Gilberto Gil, em vinheta que fechou o lado A do LP como se a canção de Gil estivesse sendo entoada por grupos de cantadores nordestinos.

Entre a música de Mautner e a balada de Gil, a cantora deu voz no disco ao xote Telha de vidro (Tiago Araripe e Alencar Araripe), música esquecida do lado A em que Amelinha sustentou o conceito desse álbum sobre a lua.

Um arretado toque da sanfona se fez ouvir na abertura do lado B do LP no arranjo de Banzo (Petrucio Maia e Vito Moreno). O conceito do álbum Romance da lua lua se diluiu nesse lado B em que Amelinha também deu voz a uma balada, Das maravilhas, em que o compositor Zé Ramalho deixou a impressão de querer soar como Roberto Carlos.

Parceiros na criação de Gemedeira, o já mencionado hit de Amelinha em 1980, Robertinho de Recife e José Carlos Capinan contribuíram com o frevo Tomara que seja para o repertório do álbum Romance da lua lua.

Composição também gravada por Sivuca (1930 – 2006) naquele ano, no álbum Onça caetana (1983), a balada Novas canções (Glorinha Gadelha e Afonso Gadelha) foi faixa que, na gravação de Amelinha, também sinalizou a iminente incursão da cantora pelo tecnopop da década de 1980.

Por isso mesmo, resultou simbólica a alocação da Seresta sertaneza (Elomar, 1991) no fecho do álbum Romance da lua lua. Foi como se a canção lírica do sertanista compositor baiano – envolvida em cordas na gravação de Amelinha – fechasse o ciclo inicial da discografia de Amelinha, mais voltado para repertório regionalista (aos ouvidos centralizadores do eixo Rio-São Paulo) apresentado com certa urbanidade que, em âmbito mais geral, facilitou a absorção nacional das obras de compositores nordestinos como Alceu Valença, Fagner e Zé Ramalho.

Essa emoção mais real, depurada, reapareceria na discografia de Amelinha somente em 2011, ano do revigorante álbum Janelas do Brasil. À beira dos 70 anos, a serem festejados em 21 de julho deste ano de 2020, a cantora tem discos que merecem ser descobertos – como este Romance de lua lua – sobretudo por quem ignora ter sido Amelinha a primeira voz de Frevo mulher.



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