Discos para descobrir em casa – ‘Plano de voo’, Luiz Gonzaga Jr., 1975 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Plano de voo, Luiz Gonzaga Jr., 1975

“Esse homem está doente / Nem precisa exame sério / Seu mal está bem constatado / Depressa, depressa, põe no hospital / Deve ficar bem isolado / Em um quarto bem fechado / Sem portas ou janela / Pois pode ser contagiante”, receitou Gonzaguinha, em 1975, ao dar voz no álbum Plano de voo ao samba Tá certo, doutor, apresentado pelo grupo MPB4 no ano anterior, no LP Palhaços & reis (1974).

Não, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 – 29 de abril de 1991) não previu a pandemia do covid-19 e tampouco diagnosticou alguma doença contagiosa na letra dessa composição lançada há 46 anos.

Com a mordacidade recorrente no engajado cancioneiro do artista, Gonzaguinha – como era conhecido o cantor, compositor e violonista carioca criado no Morro do Estácio, terra natal de outro bamba da MPB, Luiz Melodia (1951 – 2017) – somente usou a metáfora da enfermidade transmissível na criação de Tá certo, doutor para driblar a censura do Brasil dos anos 1970 e poder falar de homem com lucidez nociva ao sistema triturador de almas na engrenagem da selva das cidades.

Gonzaguinha foi mestre nesse tipo irônico de composição, como já sinalizara três anos antes o samba Comportamento geral, logo censurado após ser apresentado em compacto editado em 1972.

A bem da verdade, a postura politizada de Gonzaguinha saltara aos ouvidos já na música que lançou o compositor em 1968, Pobreza por pobreza, toada apresentada no I Festival Universitário de Música Popular Brasileira na voz do cantor carioca Jorge Nery. Ao narrar a saga de retirante sertanejo na tentativa vã de fugir da fome, o compositor sinalizou influência do universo poético do repertório do pai, mas sob prisma político.

Filho do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912 – 1989), cuja obra é um dos pilares musicais da nação nordestina, Gonzaguinha contrariou a ideologia conformista do pai e sempre tomou partido do povo brasileiro ao construir a própria obra – pautada por ritmos como samba e bolero – com o uso de ironia ferina para atentar contra a tirania da ditadura que asfixiava o Brasil desde 1964. O que explicava letras como a da música Tá certo, doutor.

Terceiro álbum do artista, Plano de voo foi idealizado pelo artista para soar menos difícil do que os dois antecessores, ambos intitulados Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. e lançados em 1973 e 1974. Mas Gonzaguinha jamais fugiu à luta ao longo das 12 músicas que compuseram o repertório inteiramente autoral do disco gravado em 1975 com produção musical de Renato Corrêa. Até porque, nessa fase inicial da carreira, o compositor vivia levantando a voz contra o regime opressor e, por isso mesmo, era um dos alvos preferenciais dos censores.

Gravado com o toque do Modo Livre, grupo que acompanhava Ivan Lins em discos e shows, o álbum Plano de voo foi o terceiro dos 15 álbuns feitos pelo cantor na gravadora Odeon entre 1973 e 1987, incluindo na conta o álbum duplo ao vivo, A vida do viajante (1981), que juntou Gonzaguinha com Gonzagão em reunião simbólica que evidenciou a reconciliação de pai e filho após tantos desajustes emocionais.

Antes de sair precocemente de cena em abril de 1991, aos 45 anos, vítima de acidente de carro quando retornava de show feito em Pato Branco (PR), Gonzaguinha lançara dois álbuns com distribuição da gravadora Warner Music, Corações marginais (1988) e Luizinho de Gonzagão Gonzaga Gonzaguinha (1989), disco em que abordou, com arranjos de tom mais urbano e pop, o cancioneiro regionalista do pai. Contudo, o suprassumo da obra fonográfica de Gonzaguinha ficara registrado na EMI-Odeon.

O álbum Plano de voo fez parte da densa fase inicial da discografia do cantor, que se tornaria mais leve e romântico a partir do disco Começaria tudo outra vez… (1976). A abertura para o romantismo fez com que Gonzaguinha se tornasse um dos compositores mais procurados pelas cantoras da MPB entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira da década de 1980 – movimento que ampliou a visibilidade do artista até o pico de popularidade obtido com o álbum Volta ao começo (1980).

Quase nada em Plano de voo fez antever essa consagração popular, até porque o repertório do disco se mostrou asfixiante em faixas como Gás neon, ansiosa canção lançada no ano anterior por Maria Bethânia no show e disco A cena muda (1974). Em um tempo marcado por “cortes, cicatrizes, gritos engasgados, lágrimas de dor”, Gonzaguinha pareceu perder a ternura em composições endurecidas como o samba Quebra pau.

Transitando entre o samba e os ritmos nordestinos, evocados pelo aboio puxado em Contos de fada, o álbum Plano de voo rebobinou a canção Mundo novo, vida nova (1969), apresentada seis anos antes, na voz da cantora Claudette Soares, na segunda edição do Festival Universitário de Música Popular Brasileira, exibido pela TV Tupi. Gonzaguinha vencera esse festival de 1969 ao defender, com a própria voz, O trem (Você se lembra daquela nega maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?).

No álbum Plano de voo, o compositor quis ver a “nega fervendo em pleno forró”, como revelou em verso inicial de Suor e serragem, tema em que o grupo Modo Livre – Gilson Peranzzetta (piano elétrico), Fred Barbosa (baixo), João Cortez (bateria e percussão) e Ricardo Pontes (flautas) – caiu em frenético suingue nordestino, com toques de baião e maracatu.

Nessa terra nordestina, o sopro das flautas de Ricardo Pontes evocou o universo dos pífanos de Caruaru no tema instrumental O começo da festa, alocado na abertura do disco.

Mesmo que Gonzaguinha tenha buscado alguma leveza na criação de Plano de voo, álbum gravado após período em que o cantor ficou fora de cena por conta de tuberculose (doença recorrente na vida do artista a ponto de, em momento anterior de reclusão forçada, ter motivado o então adolescente de 14 anos a compor a primeira música, Lembrança da primavera), o disco carregou o peso da vida cotidiana do povo brasileiro nas esferas pública e privada.

Catatonia integral captou toda a tensão social do Brasil dos anos 1970. Parceria de Gonzaguinha com Miltinho, cantor e compositor do grupo MPP4, a canção Assim seja, amém seguiu no mesmo trilho social, com dose maior de beleza e melancolia, ao fazer desiludida crônica familiar de infância cuja dureza se repete na vida adulta do homem que, antes filho, vira pai com as mesmas dificuldades diárias na luta pela sobrevivência.

Alçado ao posto de um dos melhores discos de Gonzaguinha pelo alto teor poético de letras como a da música-título Plano de voo, esse álbum de 1975 também expôs experimentos formais do artista na área da composição, como provaram a inusitada disposição dos acordes em Niel “cabeça de bola” e o inebriante sincopado vocal do samba Geraldinos e Arquibaldos, obra-prima que encerrou o disco.

Com esse samba, Gonzaguinha marcou gol de placa e provou que já estava pronto para ganhar o público, então ainda em campo adversário, com músicas inspiradas e, ao mesmo tempo, vocacionadas para o sucesso popular.



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