Discos para descobrir em casa – ‘Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro’, Nando Reis, 2000 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, Nando Reis, 2000

♪ Foi pela voz de Cássia Eller (1962 – 2001) que, a partir de 1999, o Brasil começou a ouvir com real atenção o cancioneiro de Nando Reis, ligando a música à pessoa do artista.

Em 2000, ano em que lançou o segundo álbum solo, Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, José Fernando Gomes dos Reis ainda era um dos Titãs e já tinha sucessos autorais na discografia da cantora, sobretudo O segundo sol (1999), e também músicas gravadas por Marisa Monte e a banda Cidade Negra com grande repercussão.

Só que, na época, Nando Reis ainda era percebido mais como compositor de hits alheios do que como cantor, embora já tivesse lançado há então cinco anos o primeiro álbum solo, 12 de janeiro (1995).

Tudo poderia ter sido mudado com a edição do álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, se alguma coisa não estivesse fora da ordem nos bastidores – o que retardou a consagração solo de cantor.

É que, em 2000, o cantor, compositor e músico paulistano, nascido em 1963, já começara a se dissociar natural progressivamente dos Titãs em processo de desgaste interno que gerou mágoas entre os colegas de grupo quando Nando efetivamente se desligou em 2002 da banda que o revelara no começo dos anos 1980.

Esse momento de transição artística talvez tenha contribuído para que o álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro não tenha dado na época a Nando a merecida projeção como cantor solo. Visibilidade que o artista somente iria conseguir a partir do quarto álbum solo, A letra A (2003), sintomaticamente o primeiro disco solo gravado por Nando com o cantor já fora dos Titãs.

Desde então, o artista iniciou escalada de sucesso, alcançando na segunda metade dos anos 2000 um pico de popularidade que se manteve estável ao longo da década seguinte, com direito a conexões com nomes da atual geração pop do Brasil, como a dupla Anavitória.

Lançado há 20 anos, o álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro alinhou onze composições de autoria solitária de Nando Reis, todas então inéditas. Entre elas, havia Relicário, balada de aura delicada que ganharia projeção na voz de Cássia Eller em gravação de 2001 e que, no registro do autor, foi envolvida com quinteto de cordas orquestradas pelo violinista Glauco Fernandez.

Outro standard posterior do cancioneiro de Nando Reis, All star, também apareceu primeiramente no álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, em registro adocicado pelo toque da harpa de Cristina Braga.

All star evidenciou no disco a presença viva de Cássia Eller, musa dessa apaixonada canção que apareceria na voz da cantora no ano seguinte em gravação lançada no álbum póstumo 11 de dezembro (2002) ao lado de No recreio, outra canção previamente apresentada por Nando no disco solo de 2000.

Na foto da capa do álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, clicada por Kib Beelman, o artista aparece com o violão em imagem tradutora do espírito pop folk romântico das canções do disco.

Basta ouvir a balada Quem vai dizer tchau? para atestar que já batia um Roberto Carlos no coração pop de Nando Reis – pulsão que afloraria em discos posteriores a ponto de, em 2019, Reis ter gravado álbum com o repertório do Rei, infelizmente inventando algumas modas em vez de enfatizar somente a conexão romântica que sempre uniu os compositores de diferentes gerações.

Neste segundo álbum solo de 2000, Nando apresentou canções apaixonadas que merecem ser descobertas, caso de Frases mais azuis, composição gravada com o toque da guitarra de Peter Buck (da banda R.E.M.) e nunca revisitada pelo autor nesses 20 anos.

O diferencial é que, no álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, a atmosfera grunge de parte do disco sujou esse romantismo com a pegada do rock.

O disco, cabe lembrar, foi gravado por Nando Reis no início de 2000 em Seattle (EUA), terra natal do grunge de bandas como Nirvana e Pearl Jam, com produção musical capitaneada nos Estados Unidos por Jack Endino – músico norte-americano já arregimentado pelos Titãs para dar forma a álbuns como Titanomaquia (1993) e Domingo (1995) – e no Brasil por Tom Capone (1966 – 2004), com o próprio Nando Reis também assinando a intercontinental produção musical do disco.

A batida roqueira amplificou canções como a música-título Para quando o arco íris encontrar o pote de ouro e Hey, babe, faixa adornada com os vocais de Cássia Eller e Rogério Flausino em gravação iniciada em clima folk até cair no suingue e ganhar progressiva pressão roqueira.

Também sentida na canção Nosso amor, essa pressão foi efeito do toque azeitado da banda formada por Nando Reis (voz e violão) com Alex Veley (teclados), Fernando Nunes (baixo), Martin Barrett (bateria, percussão e acordeom) e Walter Villaça (guitarra). Nunes e Villaça foram do Brasil para os Estados Unidos com o cantor. Veley e Barrett são gringos incorporados ao disco em Seattle.

Aberto com a música Dessa vez, gravada com o toque do bandolim de Peter Buck (o já mencionado guitarrista da banda R.E.M.), o álbum Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro revelou composições que se tornariam obscuras no cancioneiro de Nando Reis, casos de O vento noturno do verão – dedicada a Gal Costa pelo cantor nos créditos do encarte da edição em CD – e Eles sabem, ambas nunca mais regravadas pelo autor.

Em essência, Nando Reis falou de amor em Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro com a pegada do rock. Dias e discos melhores viriam para o artista logo na sequência, mas as cores essenciais do arco-íris do compositor já estavam todas na aquarela deste bom álbum de 2000.



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