Discos para descobrir em casa – ‘O Nordeste e seu ritmo’, Marinês, 1961 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – O Nordeste e seu ritmo, Marinês, 1961

♪ Antes de Elba Ramalho reinar no Brasil dos anos 1980 e 1990 como a principal voz feminina do Nordeste, houve Marinês (16 de novembro de 1935 – 14 de maio de 2007).

Nascida Maria Inês Caetano de Oliveira em San Vicente Férrer (PE), cidade do interior de Pernambuco, a cantora se criou na Paraíba e debutou profissionalmente na música em 1951, ao ser contratada pela Rádio Cariri, emissora da cidade de Campina Grande (PB).

Em 1961, quando lançou o quarto álbum da carreira, O Nordeste e seu ritmo, o segundo LP do contrato assinado com a gravadora RCA-Victor, Marinês já contabilizava dez anos de carreira e já se fazia ouvir no Rio de Janeiro (RJ), cidade para onde migrara em 1956, incentivada por Luiz Gonzaga (1912 – 1989).

Coroada rainha do xaxado nesse ano de 1956 pelo próprio Gonzaga, Marinês viu a carreira deslanchar no rastro da explosão nacional do baião na segunda metade dos anos 1940 e, em 1957, lançou o primeiro álbum, sintomaticamente intitulado Vamos xaxar (1957) e editado pelo gravadora carioca Sinter.

Rei do baião e de outros ritmos genericamente encampados sob o rótulo de “forró”, Luiz Gonzaga conhecera Marinês em 1955, em Sergipe, quando a cantora integrava a Patrulha de Choque do Rei do Baião, trio formado pela artista em 1954 com o sanfoneiro paraibano José Abdias de Farias (1932 – 1991), o Abdias dos Oito Baixos, e com o zabumbeiro Cacau.

Nessa época, Marinês – que chegou a cantar boleros e outros gêneros românticos quando, no inicio da carreira, soltava a voz em emissoras de rádios de Campina Grande (PB) – já estava convertida aos ritmos nordestinos e casada com Abdias desde 1954, dois anos após ter conhecido o sanfoneiro nos bastidores da Rádio Borborema em 1952. Tendo Luiz Gonzaga como principal influência, o trio de Marinês percorria o circuito de cinemas, praças e circos nordestinos.

Mais tarde, já à frente do grupo Marinês e sua Gente, formado em 1956, a cantora personificou a versão feminina de Gonzaga – sempre com o aval do artista referencial – e, mesmo morando no Rio de Janeiro (RJ), acentuou a origem nordestina na indumentária típica da região, como exemplificou a foto que expôs a cantora na capa do álbum O Nordeste e seu ritmo. O chapéu de vaqueiro, a zabumba e a sanfona foram evidenciados na imagem tradutora do repertório e do som de Marinês.

Impulsionada pela gravação de Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera, 1957), a carreira fonográfica de Marinês deslanchou a partir da década de 1960. Ecoando sobretudo dentro das fronteiras da nação nordestina, os discos da cantora soaram coerentes com a ideologia musical e social de Marinês.

O repertório do álbum O Nordeste e seu ritmo refletiu de forma exemplar o universo musical da artista, inclusive resumindo a trajetória da cantora na biográfica Vontade de xaxá (José Batista e Fora de Matos, 1961).

Dominado por músicas de compositores nordestinos como o paraibano Antonio Barros (de 90 anos completados em março deste ano de 2020) e os pernambucanos Onildo Almeida (a caminho dos 92 anos, a serem festejados em agosto) e Zé Dantas (1921 – 1962), autor de Cadê o Peba? (1961), esse repertório conciliou a vivacidade dos temas forrozeiros com lamentos sertanejos.

Nesta seara mais melancólica, o xote Felicidade do sertanejo (Onildo Almeida, 1961) revolveu a terra seca do Nordeste para sentenciar que chuva é a maior alegria do povo do sertão árido e ávido de água. Já Meu sacrifício (Antonio Barros e Silveira Junior, 1961) relatou conflito de família de migrantes nordestinos às voltas com a (in)decisão de voltar ou não para o sertão após ter percorrido léguas tiranas para enfrentar anos de luta na cidade grande – tema recorrente no repertório de Marinês.

Em solo interiorano ou em território urbano, o nordestino é um forte como o sertanejo e também vê a alegria como mola propulsora da vida. Maior sucesso dentre as 12 músicas que compuseram o repertório do álbum O Nordeste e seu ritmo, o coco Gírias do Norte (Jacinto Silva e Onildo Almeida, 1961) animou quadrilhas, forrós e atravessou gerações.

Nesse disco de 1961, a trilha sonora junina de Marinês também incluiu Marinheiro, adaptação do tradicional tema Marinheiro só, feita por Onildo Almeida com foco no clima dos arraiais.

Já o coco Decepção (Antonio Barros e Silveira Junior, 1961) contrariou o título para destilar a malícia sensual recorrente no cancioneiro nordestino em sucessos como Por debaixo dos panos (Antonio Barros e Cecéu, 1978), música propagada em escala nacional na gravação feita por Ney Matogrosso em 1982, mas lançada quatro anos antes na voz vivaz de Marinês, também intérprete original do xote Bate coração (Cecéu, 1980), conhecido fora do Nordeste a partir de 1981 na voz de Elba Ramalho.

E por falar em xote, Mossoró (Abdias Filho e Antonio Barros, 1961) soou no álbum O Nordeste e seu ritmo como encomendado jingle publicitário da homônima cidade do interior do Rio Grande do Norte.

Encerrado com a regravação forrozeira de Boi de touca (Jayme Florence e Orlando Silveira, 1952), música lançada em disco nove antes pelo conjunto Canhoto e seu Regional, o álbum O Nordeste e seu ritmo convidou para a festa sem fugir à luta do nordestino.

Vamos refungá (José Batista e Flora de Matos, 1961) e Vamos faxiar (Antonio Barros e Silveira Junior, 1961) – crônica lúdica e pueril sobre o hábito de caçar e comer rolinhas – foram músicas de títulos imperativos que reforçaram o convite para vida alegre, levada sem grande ambições, como ratificou o recado dado por Marinês no canto de Dona Fortuna (Ayrton Amorim, Zé da Zilda e Jota Reis, 1953), regravação da composição lançada oito anos pela dupla Zé & Zilda.

Sem nunca se desviar da rota rítmica do Nordeste, Marinês gravou discos com regularidade até o fim dos anos 1980, tendo passado por gravadoras como RCA, CBS (de 1967 a 1977) e Copacabana (de 1978 a 1982), entre outras companhias fonográficas de menor porte.

Em 1999, quando Marinês já se aproximava das cinco décadas de trajetória profissional, a discípula Elba Ramalho arredondou a data e antecipou a efeméride no álbum 50 anos de forró, produzido por Elba com repertório parcialmente inédito, gravado por Marinês com conterrâneos nordestinos como Alceu Valença, Chico César, Dominguinhos (1941 – 2013), Genival Lacerda, Lenine e Moraes Moreira (1947 – 2020), além da própria Elba.

Sete anos depois, em 2006, a cantadora encerrou a discografia com álbum intitulado Marinês canta a Paraíba e gravado ao vivo com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

O título do derradeiro disco soou coerente com a trajetória de Marinês, cantora que deu voz às alegrias e às dores da gente do Nordeste, região de onde Marinês saiu sem nunca ter se afastado do universo musical em que nasceu e cresceu como artista.



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