Discos para descobrir em casa – ‘Cósmica’, Baby do Brasil, 1982 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Cósmica, Baby do Brasil, 1982

♪ Quinto álbum solo de Baby do Brasil, Cósmica foi lançado em 1982 como tradução fiel do espírito alegre e livre de Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Cantora e compositora fluminense nascida em julho de 1952, então conhecida pelo nome artístico de Baby Consuelo, a artista encerrou com o disco Cósmica o ciclo áureo da carreira solo, vivido na gravadora WEA de 1978 até aquele ano de 1982.

De 1969 a 1978, a niteroiense Baby Consuelo havia personificado a menina que cantava e dançava com vivacidade no Novos Baianos, grupo formado em Salvador (BA), em 1969, por Moraes Moreira (1947 – 2020), Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Pepeu Gomes e, claro, Baby.

Com a trupe baiana, Baby deixara a voz em algumas das melhores músicas do repertório do histórico segundo álbum do grupo, Acabou chorare (1972). Abrindo com Pepeu uma parceria afinada na vida e na música, Baby teve a entrada na WEA articulada para que pudesse sair em carreira solo quando o frescor do Novos Baianos começou a rarear na segunda metade dos anos 1970.

Iniciada com o álbum O que vier eu traço, lançado ainda em 1978, a carreira solo da cantora mostrou que Baby tinha luz própria, reacendida no álbum posterior Pra enlouquecer (1979) – de onde saiu a gravação da canção Menino do Rio (Caetano Veloso, 1979), propagada em escala nacional na abertura da novela Água viva (TV Globo, 1980) – e no disco Baby Consuelo ao vivo (1980), captado em show apresentado pela cantora na edição do Montreux Jazz Festival naquele ano de 1980.

Antecedido pelo álbum Canceriana telúrica (1981), o álbum Cósmica flagrou Baby Consuelo – assim batizada por Moraes Moreira, a título de curiosidade – em momento luminoso e de grande popularidade. Tanto que a WEA liberou verba para que o álbum Cósmica fosse mixado e masterizado no Atlantic Studios, em Nova York (EUA), em ação até então inédita na discografia da cantora.

Mesmo que o som tivesse resultado resplandecente, o álbum Cósmica bisou em essência a fórmula bem-sucedida do LP anterior Canceriana telúrica. Tanto um como outro disco tiveram produção musical orquestrada por Guti Carvalho sob a direção musical de Pepeu Gomes, criador dos arranjos das 10 músicas do álbum Cósmica.

Esses arranjos já sinalizaram tendência tecnopop que ficaria mais evidenciada nos dois álbuns seguintes feitos por Baby na gravadora CBS, Kryshna Baby (1984) e Sem pecado e sem juízo (1985), após os quais a carreira fonográfica da cantora perdeu impulso e visibilidade até ser revigorada com o retorno triunfal da artista ao pop em 2012, com o show Baby sucessos, eternizado três anos depois no CD e DVD Baby sucessos – A menina ainda dança (2015).

Sucesso radiofônico do álbum Cósmica, a música-título – composta por Baby no banheiro, ao fim de madrugada – irradiou a espiritualidade latente no cancioneiro da artista. Tanto que a letra zen de Seus olhos – a música mais inspirada da safra autoral do álbum Cósmica – se tornou premonitória, se analisada em perspectiva, por sintonizar linha a linha espiritualidade adotada pela artista ao se converter à religião evangélica, fase de álbuns como Exclusivo para Deus (2000) e Geração guerreiros do apocalipse (2011). Com a ressalva de que Seus olhos – parceria de Baby com Jorginho Gomes, baterista da banda arregimentada para o disco Cósmica – focou romantismo sensual.

Com capa que expôs Baby do Brasil em foto de Antonio Guerreiro (1947 – 2019) em que a cantora apareceu pela primeira vez com os cabelos coloridos na discografia, o álbum Cósmica aterrissou em solo pop baiano quando entrou no balanço do ijexá em Aganjú (Charles Negrita e Pepeu Gomes).

Sabor de mel deu sequência ao disco no mesmo clima. Foi a primeira das três parcerias de Baby com Pepeu Gomes na ordem em que as 10 músicas foram dispostas nos dois lados do LP Cósmica. A segunda foi Emília, a boneca gente, composta e gravada para o especial infantil Pirlimpimpim, produzido e exibido pela TV Globo naquele ano de 1982 em homenagem ao centenário de nascimento do escritor paulista Monteiro Lobato (1882 – 1948).

A terceira foi o samba Pra haver amor entre os homens, dedicado à cantora Elza Soares – então em fase de ostracismo – e embasado com batucada típica do gênero. Na letra humanista do samba, Baby – em outro indício de que se tornaria popstora no futuro – pregou amor geral e emulou o bebop da voz rouca de Elza.

Em seguida, o álbum Cósmica apresentou a primeira e única parceria de Baby com João Donato, Um arco-íris na tarde, em cuja gravação o pianista Luciano Alves procurou reproduzir o suingue cheio de latinidade do piano de Donato.

Na única regravação do repertório quase todo inédito do álbum Cósmica, Baby do Brasil atualizou Se eu quiser eu compro flores – parceria de Moraes Moreira com Luiz Galvão lançada há então onze anos pelo grupo Novos Baianos no primeiro álbum da turma, É ferro na boneca! (1970) – no tom pop dos anos 1980. Viagem dos compositores pelo espaço, a letra citou Terra e astronauta em sintonia com a crença cósmica de Baby do Brasil.

Em tom transcendental, com a pegada roqueira da hendrixiana guitarra de Pepeu Gomes, De alma pra alma (Pra Yogananda) foi música composta por Baby, sem parceiro, que já indicou caminhos que seriam seguidos pela artista convertida nos anos 1990.

Composição também assinada somente por Baby, o elétrico baião Por fora e por dentro evocou, tinindo e trincando, a arretada sonoridade nordestina no arremate de Cósmica, álbum tradutor da alma telúrica de Baby do Brasil na imensidão do universo da música do Brasil.



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