Discos para descobrir em casa – ‘Correio da Estação do Brás’, Tom Zé, 1978 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Correio da Estação do Brás, Tom Zé, 1978

♪ Bairro da cidade de São Paulo (SP) notabilizado pela concentração de migrantes nordestinos, o Brás inspirou o conceito do sexto álbum de Tom Zé, Correio da Estação do Brás.

Lançado em 1978, em edição da gravadora Continental, o álbum Correio da Estação do Brás versou sobre o vaivém geográfico e emocional de migrantes como o próprio Antônio José Santana Martins, cidadão que veio ao mundo em 11 de outubro de 1936 em Irará (BA), cidade do interior da Bahia, e que se deslocou para a cidade de São Paulo (SP) nos anos 1960 – após período vivido em Salvador (BA) – em movimento recorrente na trajetória de artistas nordestinos em busca de visibilidade nacional no eixo cultural Rio-São Paulo.

Integrante da turma baiana que idealizou a Tropicália, movimento que sacudiu os alicerces da MPB entre 1967 e 1968, Tom Zé fechou com o álbum Correio da Estação do Brás ciclo que completou uma década naquele ano de 1978.

Em 1968, há então dez anos, o cantor e compositor vencera festival – com canção justamente intitulada São São Paulo, meu amor – e lançou o primeiro álbum, Tom Zé, também conhecido como Grande liquidação.

Logo desgarrado da trupe tropicalista, Tom Zé construiu nos anos 1970 obra pavimentada à margem do mercado fonográfico, com alta dose de inventividade em discos lançados através de gravadoras nacionais como a RGE – por onde o artista lançou o segundo álbum, Tom Zé, em 1970 – e a Continental, companhia na qual o cantor gravou LPs que sedimentaram a obra do compositor, casos dos álbuns Tom Zé (1972), Todos os olhos (1973) e, sobretudo, do experimental Estudando o samba (1976).

Álbum que antecedeu Correio da Estação do Brás na discografia de Tom Zé, Estudando o samba se tornaria aclamado com o decorrer do tempo, mas, ao ser lançado em fevereiro de 1976, foi menosprezado pelos críticos da época (“E se estudasse mais?”, provocou Sérgio Cabral no título da resenha publicada no jornal O Globo) e ignorado pelo público – como, a rigor, todos os discos anteriores do artista tinham sido ignorados pelo povo habituado a ouvir canções facilmente digeríveis.

Foi nesse contexto inteiramente desfavorável que Tom Zé entrou em estúdio para gravar Correio da Estação do Brás, quarto e último álbum do cantor na gravadora Continental.

Com fidelidade ao tema principal (mas não único) desse disco de recorrente sotaque nordestino nos arranjos criados por Otavio Basso (1946 – 2015), mas com incursões pelo samba, Tom Zé apresentou álbum de insistente melancolia entranhada em safra de inéditas canções autorais em que sobressaíram Menina Jesus – composição em que o artista versou sobre o sonho de ascensão social dos migrantes na década do falso “milagre brasileiro” da economia do Brasil – e Morena (Tom Zé em adaptação de tema de domínio público), canção que pôs em foco os desajustes afetivos e profissionais do migrante às voltas com a lente que aumentava o corpo da mulher desejada e inacessível.

As músicas Correio da Estação do Brás e Carta deram sequência à narrativa do disco com letras que versaram sobre o trânsito de notícias dos migrantes para amores e familiares saudosos, sendo que, na música-título, sustentada por base percussiva, Tom Zé personificou espécie de cantador nordestino com prosódia evocativa das vozes do gênero, como se estivesse cantando em feira do interior da Bahia.

O canto de Pecado original sublinhou a aridez de Correio da Estação do Brás, um dos álbuns com menor dose de experimentação na obra de Tom Zé, mas nem por isso menos interessante, como comprovaram faixas como o baião A volta de Xanduzinha – alusão explícita ao baião Xanduzinha (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) – e o samba Pecado, rifa e revista.

Em Lavagem da igreja de Irará, faixa de maior vivacidade rítmica, o compositor expôs reminiscências da cidade baiana em que passou a infância e para onde cogitou retornar nos anos 1980 quando se viu desiludido com a carreira musical – movimento que somente não se concretizou porque, ao ser “descoberto” pelo norte-americano David Byrne em 1986, Tom Zé retomou a carreira fonográfica (em série de álbuns gravados para os Estados Unidos ao longo da década de 1990) e, no embalo, teve a obra revitalizada e reavaliada no Brasil, sobretudo a partir dos anos 2000.

Mesmo com a ovação tardia, Correio da Estação do Brás permaneceu ao longo do tempo como um dos álbuns menos ouvidos de Tom Zé, mesmo tendo sido reeditado no formato de CD em 2000 em série, Dois momentos, produzida por Charles Gavin para a Warner Music, gravadora detentora do acervo da Continental.

A obscuridade do disco explica o esquecimento de músicas como Amor de estrada, bolero de aura bem kitsch composto por Tom Zé em inusitada (e única) parceria com o publicitário Washington Olivetto.

Duas parcerias de Tom Zé com Vicente Barreto, violonista do disco – os sambas metalinguísticos Lá vem cuíca (gravado com a voz de Barreto) e Na parada de sucesso – completaram o repertório de Correio da Estação do Brás, fechando o álbum gravado com músicos como o percussionista Mauro Herrera, o tecladista Armando Ferrante Jr. e o baixista Pedro Ivo Lunardi.

Após o álbum Correio da Estação do Brás, Tom Zé ficou seis anos sem gravar. O cantor quase foi para a Som Livre em 1980, a convite do diretor da gravadora João Araújo (1935 – 2013), produtor dos dois primeiros álbuns do artista, mas, diante da inviabilidade de João produzir um terceiro álbum do cantor, Tom Zé abriu mão do contrato.

O artista voltaria ao mercado fonográfico somente em 1984, via RGE, com o LP Nave Maria (1984), único álbum da década mais improdutiva da carreira deste migrante nordestino que, em 1978, soube traduzir os anseios dos conterrâneos que desembarcavam na Estação do Brás com a mala cheia de esperança e ilusão de dias melhores na selva da cidade de São Paulo (SP), amor antigo deste baiano octogenário que conserva a alma de criança.



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