Discos para descobrir em casa – ‘Boca do povo’, João Nogueira, 1980 | Blog do Mauro Ferreira

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DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Boca do povo, João Nogueira, 1980

♪ Faz 20 anos que João Nogueira (12 de novembro de 1941 – 5 de junho de 2000) saiu de cena, deixando obra eternizada em 20 álbuns lançados entre 1972 e 1999. Sétimo álbum do cantor e compositor carioca, Boca do povo foi lançado em 1980, há 40 anos, e deu amostra fiel da ideologia social e musical dessa obra referencial no universo do samba feito no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980.

Desde 2007 também conhecido postumamente como “o pai do Diogo Nogueira”, voz sobressalente na geração de cantores brasileiros projetados ao longo dos anos 2010, João descende da nobre linhagem dos bambas Geraldo Pereira (1918 – 1955) e Wilson Baptista (1913 – 1968), não por acaso celebrados pelo artista ao lado de Noel Rosa (1910 – 1937) em Wilson Geraldo Noel (1981), álbum de intérprete que seguiu Boca do povo na discografia do artista.

Apresentado como compositor em 1968, com a gravação do samba Espere oh! nega pelo conjunto Nosso Samba, João Nogueira começou a ganhar visibilidade e prestígio quando a cantora Elizeth Cardoso (1920 – 1990) incluiu o samba Corrente de aço no álbum Falou e disse (1970).

O aval da Divina abriu caminhos para o artista na indústria do disco. Apadrinhado por Adelzon Alves, radialista e produtor musical com grande poder no mercado da época, o então debutante cantor gravou dois sambas no disco coletivo Quem samba fica…, produzido por Adelzon em 1971 para registrar as vozes e as obras de bambas emergentes como João e Roberto Ribeiro (1940 – 1996).

Um dos dois sambas lançados por João nesse pau-de-sebo, jargão que designa discos feitos para testar o potencial de artistas iniciantes, Mulher valente é minha mãe foi regravado pelo autor no álbum Boca do povo, disco produzido por Paulo Debétio, com repertório quase inteiramente inédito, cujo maior sucesso foi o samba Poder da criação, segundo título da Trilogia do alumbramento, composta por João com o parceiro letrista Paulo César Pinheiro.

Iniciada em 1979 com o samba Súplica, sucesso do álbum anterior do cantor, Clube do samba (1979), a trilogia seria encerrada em 1981 com Minha missão na voz de Clara Nunes (1942 – 1983), cantora que propagou muitos sambas da parceria de João com Paulo César Pinheiro.

Não tivesse sido o extraordinário compositor que foi, João Nogueira poderia ter se dedicado à missão de cantar e ter ganhado a vida somente como intérprete. A voz grave do cantor tinha sincopado singular, como provou no álbum de 1980 a gravação do maxixado samba Serei teu ioiô, uma das pérolas do repertório de Boca do povo.

Parceira póstuma de Monarco com Paulo da Portela (1901 – 1949), autor da antiga primeira parte, Serei teu ioiô balançou bonito no gingado da voz de João, mestre nas divisões, e também foi gravado em disco por Monarco naquele ano de 1980.

Amplificada nos álbuns Lá vou eu (1974) e Vem quem tem (1975), discos que deram ao cantor a projeção tentada com o primeiro homônimo álbum de 1972 e com o single de 1973 em que apresentou sem sucesso o futuro clássico Espelho (primeiro título da afinada parceria com Paulo César Pinheiro), a voz grave de João Nogueira tinha suingue sem deixar de alcançar regiões mais emocionais se a música assim exigisse.

No samba-canção Quedas e curvas, parceria de João com Ivor Lancellotti, essa voz destilou certa melancolia no tom seresteiro da gravação. Com Ivor Lancellotti, João também assinou no disco Bons ventos, maxixe de bela melodia, ritmo aliciante e letra esperançosa que fechou o álbum, a tempo de se impor como uma das joias de maior quilate do inspirado repertório de Boca do povo.

Desse coeso repertório, mereceu menção honrosa “Seu” dono da gente, samba sincopado da então popular dupla de compositores Wilson Moreira (1936 – 2018) e Nei Lopes, nunca mais gravado ao longo dos últimos 40 anos. O registro de João foi bafejado pelo sopro do sax de ninguém menos do que o maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006), luxo deste samba de crítica social, refeita no partido alto Trabalhadores do Brasil.

Na criação desse partido, João musicou os versos imagéticos de Paulo César Pinheiro, tal como fez com a letra marota do samba Saudade de solteiro – outro destaque da safra da parceria apresentada no disco Boca do povo – e com os versos imperativos do samba Cavaleiros santos, surgido de melodia posta em letra escrita em feitio de oração. A faixa ganhou pegada afro, acentuada pelo coro feminino arregimentado para a gravação da faixa.

Com Geraldo Vespar, principal arranjador do álbum Boca do povo, João compôs o afro-samba Lá de Angola, com letra escrita com inspiração na viagem feito pelo artista a Angola em maio daquele ano de 1980. Ritmistas mirins da escola Unidos de Vila Isabel reforçaram o tom africano do samba.

A força do samba exaltou o gênero que moveu o disco, a obra e a vida de João Nogueira. Com a ressalva de que esse samba trouxe a assinatura de outro bamba, o compositor fluminense Luiz Grande (1946 – 2017), projetado pelo próprio João Nogueira há dois anos com a gravação do samba Maria Rita no álbum Vida boêmia (1978), título da discografia de João nunca editado no formato de CD.

Completou o repertório do álbum Boca do povo a regravação de Linguagem do morro, samba feito pelo compositor Oswaldo Vitalino de Oliveira (1927 – 1987), o Padeirinho da Mangueira, em parceria com Ferreira dos Santos. Lançado em 1961 na voz do cantor Jamelão (1913 – 2008), o samba Linguagem do morro alinhou gírias das favelas na letra. Foi samba talhado para a boca do povo, como grande parte da magistral da obra de João Nogueira.

Lançado via Polydor, selo da gravadora Philips, com capa que expôs o cantor em foto tirada por Milton Montenegro no estádio Maracanã, Boca do povo foi curiosamente o último álbum do cantor a alcançar expressivo sucesso popular, por força do samba Poder da criação.

Alheio ao vaivém do mercado fonográfico, João Nogueira nunca mais obteve esse sucesso na própria discografia, mas desenvolveu a obra com coerência em série de álbuns lançados ao longo da década de 1980.

A partir dos anos 1990, a discografia ganhou títulos forçosamente retrospectivos. Só que então a grande obra já estava bem alicerçada, inclusive na memória popular de quem viveu a era do samba de João Batista Nogueira Junior, bamba que saiu de cena há 20 anos para ficar na história.



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