Coluna – Lazer com estratégia

Coluna – Lazer com estratégia


Entre as modalidades paralímpicas, a bocha será uma das últimas cujos atletas poderão treinar e competir presencialmente em meio à pandemia do novo coronavírus (covid-19). Os praticantes são pessoas com lesões medulares ou grau severo de paralisia cerebral, que se enquadram no grupo de risco da doença.

Não significa, porém, que essa turma esteja só aguardando a pandemia e a liberação para voltar às atividades. Longe das quadras, os atletas se apegaram a um game, chamado Boccia Battle, que virou febre na comunidade da bocha e permite, ao menos virtualmente, que eles matem a saudade da modalidade.

O aplicativo é disponível gratuitamente para os sistemas operacionais iOs e Android e é possível tanto jogar contra o computador como enfrentar outras pessoas on-line. “Conheci pelo pessoal da seleção. Baixei e fui jogar com eles, porque tem tempo que a gente não joga junto ou se encontra”, conta, à Agência Brasil, Igor Barcellos, da classe BC1 (jogadores com paralisia cerebral) e que também defende a equipe nacional.

Na bocha, são disputados quatro sets, no qual cada jogador pode lançar seis bolas. Soma-se um ponto a cada bola que fique próxima a bola alvo, de cor branca. No game, a regra é a mesma. “No meu primeiro jogo, perdi de 16 a 0 para o Maciel [Santos, campeão paralímpico da classe BC2 – também para atletas com paralisia cerebral]. Depois, já comecei a perder de menos. Agora até venço”, diz Igor, que é de Niterói, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Poder enfrentar amigos de categorias diferentes em condição de igualdade, pelo aplicativo, também chamou atenção do fluminense, eleito o Atleta da Galera no Prêmio Paralímpicos em 2018. “O jogador BC1 tem uma limitação maior que o BC2. Na BC3 [atletas de maior comprometimento motor], o pessoal joga [com auxílio] de calha e a mira é praticamente 100%. E no BC4 [atletas com quadro de origem não cerebral, como lesionados medulares], eles têm força, mandam bola aérea, lá no meio”, explica, antes de brincar: “Pelo menos, no joguinho, é minha chance de ganhar deles [risos]”.

Campeão interno

Com o calendário da bocha paralímpica suspenso até o fim do ano, por conta da pandemia, não demorou para a brincadeira virtual ficar séria. Após um seminário, Melissa Macedo, técnica da modalidade no Rio de Janeiro Power Soccer (RJPS), teve a ideia de fazer um torneio interno da equipe. “Um palestrante falou de outro game, que ele usava para ensinar outra modalidade, e que realizava campeonatos. Lembrei que o aplicativo [Boccia Battle] possibilitava jogos on-line e que ele era bem semelhante à bocha real. Os atletas ficaram muito animados”, diz à Agência Brasil.

A maioria dos jogadores preferiu jogar entre si antes do campeonato, para treinar. A estratégia de Lucas Dutra foi diferente. “Resolvi conhecer sozinho a física do jogo, que é parecida com a vida real, mas tem coisas diferentes, enfrentando o computador”, explica à Agência Brasil o jovem da categoria BC3, que foi vice no torneio interno. “Sendo sincero, não estava botando muita fé, mas fiquei muito empolgado. Pena que não ganhei, mas ficar em segundo está bom para quem nem conhecia o jogo direito [risos]”, completa.

O campeonato reuniu 15 jogadores e teve até divulgação nas mídias sociais do time. O campeão foi justamente Igor Barcellos, que, apesar de não jogar bocha pelo clube, foi convidado por ser da equipe de power soccer (futebol para cadeirantes) da instituição. “Eu costumo jogar [o game] de bobeira, deitado, relaxado. Na competição, o negócio ficou tenso. Muda só de valer alguma coisa. A mão até transpira [risos]”, conta.

Virtual pró-real

Na teoria, a mecânica do Boccia Battle é simples: com um dedo, o usuário comanda direção e força do arremesso da bola. Jogar bocha, porém, vai muito além disso. Requer estratégia, seja para posicionar as bolas o mais perto possível da branca ou deslocar as lançadas pelo adversário. Até por isso, sem treinos presenciais, o aplicativo tem ajudado técnicos e jogadores a aprimorar a leitura tática das partidas durante a quarentena.

“Acredito que, além da possibilidade de lazer, o game pode ser uma ferramenta pedagógica. Alguns atletas apontaram que puderam vivenciar e praticar, pelo aplicativo, muitas situações de jogo que discutimos em reuniões teóricas. Até a professora Juliana [Alencar, também técnica no Rio de Janeiro Power Soccer] apontou que alguns atletas relataram que, antes do jogo, só viam uma maneira [de jogar]. Depois, com o aplicativo, conseguiram ver as várias possibilidades e estratégias”, descreve Melissa.

“Dá para pensar em algumas táticas. Eu acho que, principalmente esse papel [do game] é interessante. A mira [virtual], é claro, não é igual [a real], mas você tem uma tática por trás [do lançamento] que consegue ser parecida”, avalia Lucas, que pratica bocha há dois anos e foi medalhista de ouro na Paralimpíada Escolar do ano passado.

Além da visão de jogo, Igor destaca a possibilidade de interação entre jogadores da modalidade em todo o país, hoje mais limitada que o normal devido à pandemia. “Você tem o pessoal do Sul e do Nordeste jogando juntos, interagindo. O pessoal da bocha é muito comprometido e, com esse game, parece que a comunicação entre quem joga cresceu. Quando as coisas voltarem, acho que isso continuará”, conclui o atleta da seleção.





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